segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Platina: Temos que Pegar!

Vamos esclarecer um conceito desde o início: platinar, em termos de videogame, significa conquistar o troféu de platina em jogos de Playstation 3, geralmente obtido após todos os outros daquele determinado título.


Os troféus disponíveis no Playstation 3. No centro, o de Platina.
Os troféus, por sua vez, são a resposta da Sony para os achievements do Xbox 360. Falarei do Playstation 3, com o qual estou mais familiarizado, mas, apesar das diferenças, o conceito fundamental é o mesmo.
 
Mas o que são essas conquistas e o que elas valem?
 
Bom, lembremos como eram as coisas antigamente. No começo, os jogos não tinham absolutamente nada além do que a primeira impressão demonstrava, portanto não havia muito sentido, ou motivo, em continuar a investir o seu tempo em algum jogo depois que a história básica estivesse completa. A menos, é claro, que fosse um daqueles títulos que possuíam múltiplos finais e você fizesse questão de vê-los todos.
 
Depois vieram os códigos, que habilitavam uma série de poderes especiais para os afoturnados que os soubessem. Sorte de quem comprava revistas de videogame ou era um desses moderninhos que tinha internet antes de todo mundo e sabia que apertar duas vezes pra cima e start na tela de apresentação te dava acesso a uma arma extra.
 
O próximo passo – e digo isso de forma generalizada, pois, até certo ponto, tudo isso coexistiu – foram os objetivos desbloqueáveis. Levante a mão quem nunca passou horas em Time Trials, ou refazendo fases, coletando todas as estrelas, ou qualquer coisa desse tipo, apenas para habilitar uma nova roupa para o seu personagem. Às vezes as tarefas eram tão cansativas e repetitivas, que abusavam da sua boa vontade e te faziam nem querer olhar mais o jogo depois de habilitar o tal do novo uniforme: ou seja, fundamentalmente, tinha sido em vão.
Ainda resta paciência para jogar Tomb Raider Anniversary depois de habilitar todas as roupas?
É isso que os troféus e achievements são: esforço em vão, sem sequer o bônus de habilitar algo que você não vai usar. Claro, vem uma mensagem dizendo que liberou o troféu e ele fica lá, em sua forma digital, na sua bela galeria virtual para a qual ninguém – além de você – dá qualquer importância.

Se analisarmos de forma fria, fica mesmo difícil entender por que um ser humano se expõe a isso. Às vezes os desafios são bem-vindos e acabam proporcionando aos jogadores a oportunidade de observar uma porção de coisas que eles não teriam visto se apenas passassem correndo pelo jogo. Nesse tipo de caso, fica mais fácil de entender e justificar a existência dessas metas: elas te fazem tirar mais proveito do jogo, te incitam a experimentar tudo que ele pode oferecer e descobrir coisas que, talvez, nunca saberia que estavam lá.
 
Precisou coletar todos as moedinhas e para isso subiu montanhas em lugares remotos do mundo, onde você nunca teve motivação real para ir? Legal, está vendo esta parte do mapa que poderia ter sido esquecida. Ou talvez a sua busca te fez correr cada tela do jogo com um pente fino, olhando com atenção o cenário inteiro para encontrar a moeda escondida, e pode ser que nisso você percebeu um objeto legal, escondido no cenário. Ou quem sabe você precisou enfrentar todos os tipos de inimigos e, por causa disso, se envolveu em batalhas divertidas que, a princípio, teriam passado batido.
Você pode perder a chance de bater em zumbis com um celular gigante se jogar Dead Rising 2 ignorando troféus.
Desse ponto de vista, os troféus parecem ter uma função de existir. E tem também aqueles desafiadores: vença no modo difícil sem perder nenhuma vida; passe o jogo sem usar tal arma e assim por diante. Nesse caso, são conquistas que, de fato, evidenciam a sua proeza como jogador, e o seu ego pode achar bem interessante se gabar delas. Afinal, não todo mundo que consegue derrotar o último chefe usando apenas uma colher de plástico, né? Você pode ostentar o seu troféu com o mesmo orgulho de um militar condecorado. Bom, exceto pelo fato de que provavelmente ninguém o verá.
 
Mas tem também aqueles troféus que simplesmente estão lá. Ou são tão fáceis e banais para se obter – passe a fase de tutorial -, ou meros testes da sua paciência. Alcance o nível máximo no jogo, um ponto de cada vez. É, todo mundo é capaz de fazer isso. O único desafio será você demonstar a paciência necessária para suportar fazer a mesma tarefa repetivida por um impensável número de horas.
 
Por que fazer isso então? Pela platina. Ou o 100%. Ou seja lá o que for. Meramente pela sensação de cumprir todos os desafios que o jogo te fez. E não seria esse exatamente o objetivo dos videogames?
 
Parece estanho olhando de fora, eu sei. Já tive a mesma sensação e algumas pessoas, mesmo tendo consoles modernos, ainda não conseguem entender por que gastar tempo dedicando-se a atingir metas que não repercutem em bonificação nenhuma.
 
De fato, não há como explicar, pelo menos não de forma lógica. Tem a ver com satisfação pessoal, com o sentimento de vencer os desafios, completar todos os objetivos. Como tudo que depende de gosto, isso é uma questão bastante individual.
 
Bem dizia Kevin Butler, na conferência da Sony em 2010: apenas um gamer entende por que ficar acordado até as três da manhã para conquistar um troféu que na verdade não está lá.
 
Segue o discurso dele completo, para quem falar inglês: http://www.youtube.com/watch?v=TvqRlhpNdYA
 
Porém, mesmo que falemos apenas das pessoas que dão algum valor à conquista de troféus, ainda assim encontraremos situações diversas.
 
Como tudo na vida, você sabe que tem alguém, em algum lugar, que se dedica tanto à coisa, que chega a ser uma obsessão. No meio do caminho, cada um vai delimitando onde fica a linha do limite entre o compreensível e o "longe demais".
 
Quanto a mim, posso dizer que, se antes era abismado pelo fato, hoje me empenho em obter os troféus que posso, na medida em que acho saudável. Eu jogo o que quero, não me motivo por ser mais ou menos fácil em conseguir as conquistas, nem deixo de jogar alguma coisa apenas porque já fiz tudo que o jogo me mandava fazer. Enquanto considero interessante jogar – e tradicionalmente dou muita vida útil ao meus jogos antes de abandoná-los – eu faço o possível para conquistar o maior número de troféus possíveis. Às vezes a tarefa é difícil demais, ou cansativa e repetitiva demais, e aí depende de cada jogo para saber por quanto tempo estou disposto a persitir. Não é raro eu abdicar da platina, por achar que o esforço simplesmente não vale a pena.
 
Mas existem também os que não conhecem o significado da palavra desistir. Existem aqueles que dão tanto valor à quantidade de platinas obtidas, que isso quase se torna a motivação inteira de jogar. Chamo estes de "platinadores".
 
Os platinadores escolhem os seus jogos em boa parte porque eles oferecem maiores chances de conquistar todos os troféus. Feito realizado, passam para um novo jogo. Às vezes, se submetem a um título ruim, se for necessário, desde que seja possível obter facilmente a platina.
 
Estão experimentando totalmente o jogo ou sendo motivados a melhorar? Não exatamente. Não é raro este tipo de gamer utilizar qualquer artifício à disposição, combinando partidas, trocas de favores, utilizando dicas, ou o que for. Certa vez até já encontrei alguém que queria combinar o resultado de uma partida ranqueada de Mortal Kombat. O detalhe é que não é possível escolher o seu adversário lá, então o plano seria tentar repetitivamente até o jogo aleatoriamente colocar você e o seu "parceiro no crime" um contra o outro.
Hannah Montana: The Movie para PS3. A sua irmãzinha - e os platinadores - adoram.
Não, obrigado. Eu fiz sozinho os meus troféus no rank de Mortal Kombat. Fiquei satisfeito e achei engraçado quando agarrei um cara oito vezes em uma luta séria. Para mim não teria tido o mesmo significado fazer isso combinado.

Então isso é errado? Bom, não existe certo ou errado nesse assunto. Certamente, eu acho esquisito, acho que passa um pouco dos limites do razoável. Porém, outros não poderiam dizer exatamente o mesmo de mim? Não era eu quem estava levando todos os personagens de Super Street Fighter 4 à classe C? Sim, fiz isso na raça, aproveitando a oportunidade para aprender a jogar ao menos decentemente com cada um deles, mas em uma análise objetiva, por nenhum outro propósito a não ser a satisfação pessoal – nenhum mesmo, nem a platina, uma vez que em Street Fighter há um troféu que exige uma perícia bastante grande, bem acima do que sou capaz de fazer.
 
De modo que, ainda que eu pense que os platinadores exageram um pouco, seria hipocrisia desfilar como um exemplo de pragmatismo.
 
Acreditem ou não, este não é o "fundo do poço". Há aqueles que vão ainda mais longe e utilizam consoles hackeados e/ou saves adulterados, para simplesmente se dar os troféus que quiserem conquistar.
Jogar é tão old school... É assim que se platina hoje em dia.
Eles não têm sequer o trabalho de iniciar o jogo: utilizando uma ferramenta de edição de códigos, liberam o troféu instantaneamente. Tudo pelos números, deixando completamente de lado não só as partes extras, como, às vezes, a experiência inteira do jogo.
 
Será que, pelo menos quanto a esse ponto, podemos todos concordar que isso é ir longe demais?
 

 

Um comentário:

  1. O que acho mais legal dos Trophies (ou outro sistema que lista desafios) é justamente a maneira como pode incentivar o jogador a fazer coisas diferentes, inusitadas ou simplesmente difíceis.

    Lembro uma vez que joguei The King of Fighters com meus primos, utilizando "regras". Por exemplo, "vencer utilizando personagens loiros". Isso gerou um desafio interessante para as partidas e, por mais que possa soar "bobo", envolveu estratégia e conhecimento das paletas de cores (ou, no mínimo, saber jogar com vários personagens loiros).

    Isso me parece muito saudável. E quem sabe jogar Hannah Montana por conta dos trophies tenha seu ponto positivo: você experimenta diversos estilos de jogo, o que é um bom exercício para o cérebro (e a paciência, no mínimo).

    ... e realmente envolve "jogar". O exemplo do hack, no final do texto, tem nada a ver com jogar videogame, e está mais parecido com mentir para as pessoas pra ganhar atenção (ou se iludir com algo).

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