Vamos esclarecer
um conceito desde o início: platinar, em termos de videogame,
significa conquistar o troféu de platina em jogos de Playstation 3,
geralmente obtido após todos os outros daquele determinado título.
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Os
troféus disponíveis no Playstation 3. No centro, o de Platina.
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Os
troféus, por sua vez, são a resposta da Sony para os achievements
do Xbox 360. Falarei do Playstation 3, com o qual estou mais
familiarizado, mas, apesar das diferenças, o conceito fundamental é
o mesmo.
Mas
o que são essas conquistas e o que elas valem?
Bom,
lembremos como eram as coisas antigamente. No começo, os jogos não
tinham absolutamente nada além do que a primeira impressão
demonstrava, portanto não havia muito sentido, ou motivo, em continuar
a investir o seu tempo em algum jogo depois que a história básica
estivesse completa. A menos, é claro, que fosse um daqueles títulos
que possuíam múltiplos finais e você fizesse questão de vê-los
todos.
Depois
vieram os códigos, que habilitavam uma série de poderes especiais
para os afoturnados que os soubessem. Sorte de quem comprava revistas
de videogame ou era um desses moderninhos que tinha internet antes de
todo mundo e sabia que apertar duas vezes pra cima e start na tela
de apresentação te dava acesso a uma arma extra.
O
próximo passo – e digo isso de forma generalizada, pois, até certo
ponto, tudo isso coexistiu – foram os objetivos desbloqueáveis.
Levante a mão quem nunca passou horas em Time Trials, ou refazendo
fases, coletando todas as estrelas, ou qualquer coisa desse tipo,
apenas para habilitar uma nova roupa para o seu personagem. Às vezes
as tarefas eram tão cansativas e repetitivas, que abusavam da sua
boa vontade e te faziam nem querer olhar mais o jogo depois de
habilitar o tal do novo uniforme: ou seja, fundamentalmente, tinha
sido em vão.
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Ainda
resta paciência para jogar Tomb Raider Anniversary depois de
habilitar todas as roupas?
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É
isso que os troféus e achievements são: esforço em vão, sem sequer o bônus de habilitar algo que você não vai usar. Claro,
vem uma mensagem dizendo que liberou o troféu e ele fica lá, em
sua forma digital, na sua bela galeria virtual para a qual ninguém –
além de você – dá qualquer importância.
Se
analisarmos de forma fria, fica mesmo difícil entender por que um
ser humano se expõe a isso. Às vezes os desafios são bem-vindos e
acabam proporcionando aos jogadores a oportunidade de observar uma
porção de coisas que eles não teriam visto se apenas passassem
correndo pelo jogo. Nesse tipo de caso, fica mais fácil de entender
e justificar a existência dessas metas: elas te fazem tirar mais
proveito do jogo, te incitam a experimentar tudo que ele pode
oferecer e descobrir coisas que, talvez, nunca saberia que estavam lá.
Precisou
coletar todos as moedinhas e para isso subiu montanhas em lugares
remotos do mundo, onde você nunca teve motivação real para ir?
Legal, está vendo esta parte do mapa que poderia ter sido esquecida.
Ou talvez a sua busca te fez correr cada tela do jogo com um pente
fino, olhando com atenção o cenário inteiro para encontrar a moeda
escondida, e pode ser que nisso você percebeu um objeto legal,
escondido no cenário. Ou quem sabe você precisou
enfrentar todos os tipos de inimigos e, por causa disso, se envolveu
em batalhas divertidas que, a princípio, teriam passado batido.
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Você
pode perder a chance de bater em zumbis com um celular gigante se
jogar Dead Rising 2 ignorando troféus.
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Desse
ponto de vista, os troféus parecem ter uma função de existir.
E tem também aqueles desafiadores: vença no modo difícil sem
perder nenhuma vida; passe o jogo sem usar tal arma e assim por
diante. Nesse caso, são conquistas que, de fato, evidenciam a sua
proeza como jogador, e o seu ego pode achar bem interessante se gabar
delas. Afinal, não todo mundo que consegue derrotar o último chefe
usando apenas uma colher de plástico, né? Você pode ostentar o seu
troféu com o mesmo orgulho de um militar condecorado. Bom, exceto
pelo fato de que provavelmente ninguém o verá.
Mas
tem também aqueles troféus que simplesmente estão lá. Ou são tão
fáceis e banais para se obter – passe a fase de tutorial -, ou
meros testes da sua paciência. Alcance o nível máximo no jogo, um
ponto de cada vez. É, todo mundo é capaz de fazer isso. O único
desafio será você demonstar a paciência necessária para suportar
fazer a mesma tarefa repetivida por um impensável número de horas.
Por
que fazer isso então? Pela platina. Ou o 100%. Ou seja lá o que
for. Meramente pela sensação de cumprir todos os desafios que o
jogo te fez. E não seria esse exatamente o objetivo dos videogames?
Parece
estanho olhando de fora, eu sei. Já tive a mesma sensação e
algumas pessoas, mesmo tendo consoles modernos, ainda não conseguem
entender por que gastar tempo dedicando-se a atingir metas que não
repercutem em bonificação nenhuma.
De
fato, não há como explicar, pelo menos não de forma lógica. Tem a
ver com satisfação pessoal, com o sentimento de vencer os desafios,
completar todos os objetivos. Como tudo que depende de gosto, isso é
uma questão bastante individual.
Bem
dizia Kevin Butler, na conferência da Sony em 2010: apenas um gamer
entende por que ficar acordado até as três da manhã para
conquistar um troféu que na verdade não está lá.
Porém,
mesmo que falemos apenas das pessoas que dão algum valor à
conquista de troféus, ainda assim encontraremos situações
diversas.
Como
tudo na vida, você sabe que tem alguém, em algum lugar, que se
dedica tanto à coisa, que chega a ser uma obsessão. No meio do
caminho, cada um vai delimitando onde fica a linha do limite entre o
compreensível e o "longe demais".
Quanto
a mim, posso dizer que, se antes era abismado pelo fato, hoje me
empenho em obter os troféus que posso, na medida em que acho
saudável. Eu jogo o que quero, não me motivo por ser mais ou menos
fácil em conseguir as conquistas, nem deixo de jogar alguma coisa
apenas porque já fiz tudo que o jogo me mandava fazer. Enquanto
considero interessante jogar – e tradicionalmente dou muita vida
útil ao meus jogos antes de abandoná-los – eu faço o possível
para conquistar o maior número de troféus possíveis. Às vezes a
tarefa é difícil demais, ou cansativa e repetitiva demais, e aí
depende de cada jogo para saber por quanto tempo estou disposto a
persitir. Não é raro eu abdicar da platina, por achar que o esforço
simplesmente não vale a pena.
Mas
existem também os que não conhecem o significado da palavra
desistir. Existem aqueles que dão tanto valor à quantidade de
platinas obtidas, que isso quase se torna a motivação inteira de
jogar. Chamo estes de "platinadores".
Os
platinadores escolhem os seus jogos em boa parte porque eles oferecem
maiores chances de conquistar todos os troféus. Feito realizado,
passam para um novo jogo. Às vezes, se submetem a um título ruim, se
for necessário, desde que seja possível obter facilmente a platina.
Estão
experimentando totalmente o jogo ou sendo motivados a melhorar? Não
exatamente. Não é raro este tipo de gamer utilizar qualquer
artifício à disposição, combinando partidas, trocas de favores,
utilizando dicas, ou o que for. Certa vez até já encontrei alguém
que queria combinar o resultado de uma partida ranqueada de Mortal
Kombat. O detalhe é que não é possível escolher o seu adversário
lá, então o plano seria tentar repetitivamente até o jogo
aleatoriamente colocar você e o seu "parceiro no crime" um
contra o outro.
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Hannah
Montana: The Movie para PS3. A sua irmãzinha - e os platinadores -
adoram.
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Não,
obrigado. Eu fiz sozinho os meus troféus no rank de Mortal Kombat.
Fiquei satisfeito e achei engraçado quando agarrei um cara oito
vezes em uma luta séria. Para mim não teria tido o mesmo
significado fazer isso combinado.
Então
isso é errado? Bom, não existe certo ou errado nesse assunto.
Certamente, eu acho esquisito, acho que passa um pouco dos limites do
razoável. Porém, outros não poderiam dizer exatamente o mesmo de
mim? Não era eu quem estava levando todos os personagens de Super
Street Fighter 4 à classe C? Sim, fiz isso na raça, aproveitando a
oportunidade para aprender a jogar ao menos decentemente com cada um
deles, mas em uma análise objetiva, por nenhum outro propósito a
não ser a satisfação pessoal – nenhum mesmo, nem a platina, uma
vez que em Street Fighter há um troféu que exige uma perícia
bastante grande, bem acima do que sou capaz de fazer.
De
modo que, ainda que eu pense que os platinadores exageram um pouco,
seria hipocrisia desfilar como um exemplo de pragmatismo.
Acreditem
ou não, este não é o "fundo do poço". Há aqueles que
vão ainda mais longe e utilizam consoles hackeados e/ou saves
adulterados, para simplesmente se dar os troféus que quiserem
conquistar.
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Jogar
é tão old school... É assim que se platina hoje em dia.
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Eles
não têm sequer o trabalho de iniciar o jogo: utilizando uma
ferramenta de edição de códigos, liberam o troféu
instantaneamente. Tudo pelos números, deixando completamente de lado
não só as partes extras, como, às vezes, a experiência inteira do
jogo.
Será
que, pelo menos quanto a esse ponto, podemos todos concordar que isso
é ir longe demais?